20 Slices
Medium 9781910977088

DANIEL

Brafman, A.H. Editora Karnac ePub

Daniel estava com 7 anos e meio de idade quando sua mãe o trouxe para me consultar. Ele era encoprético desde os 3 anos de idade e sua mãe me contou que inúmeras receitas e técnicas recomendadas por múltiplos profissionais jamais haviam produzido qualquer resultado. Daniel tinha um irmão com 3 ½ anos de idade. Daniel havia frequentado um jardim de infância em sua vizinhança e agora ia a uma pequena escola primária, cujos professores sempre o elogiavam, entusiasmados com sua inteligência. Sua relação com professores e colegas era excelente. A Sra. D havia tentado estabelecer alguma relação entre o sujar-se e outros fatores na vida de Daniel, mas de fato não acreditava que existissem tais conexões. Do ponto de vista cronológico, o sujar-se havia começado por volta da época em que seus pais se separaram, mas a Sra. D dizia que isso não passava de uma coincidência. Curiosamente, Daniel só se sujava quando estava em casa e geralmente quando voltava da escola, mas só com muita relutância é que a Sra. D aceitava a possível correlação entre o sintoma e sua presença, insistindo que o sujar-se também poderia ocorrer se Daniel estivesse longe dela por algum período longo, algo que jamais acontecera.

See All Chapters
Medium 9781910977088

MONICA

Brafman, A.H. Editora Karnac ePub

Monica desenhou um episódio que ocorrera quando ela passava férias num país Oriental. Ela e sua amiga só haviam encontrado assentos no compartimento do trem usado por gente da “classe baixa”, e o desenho (Fig. 57) mostra sua amiga lendo um livro e Monica olhando para fora da janela, tentando “escapar” do barulho e sujeira do trem. No desenho seguinte (Fig. 58) duas prostitutas chegam e começam a tentar cativar dois passageiros masculinos. Um terceiro desenho (Fig. 59) mostra Monica criticando as prostitutas, dizendo-lhes que se comportem e respeitem os passageiros. Se superpusermos os desenhos 2 e 3 (Fig. 60) é impressionante ver como as prostitutas estão precisamente no mesmo lugar. Mas superpondo 1 e 2 (Fig. 61) ou 1 e 3 (Fig. 62) é a amiga de Monica que agora é vista na posição de uma das prostitutas: existe alguma ideia inconsciente na mente de Monica considerando sua amiga como uma prostituta? Ainda mais intrigante é notar que na superposição 1 e 2, bem como na 2 e 3, Monica aparece no lugar do homem a quem as prostitutas se dirigem.

See All Chapters
Medium 9781910977088

RESUMINDO

Brafman, A.H. Editora Karnac ePub

O assunto “comunicação” sempre me fascinou. Tendo crescido numa família em que frequentemente se usavam 3 línguas, aprendi o mistério de palavras pronunciadas, mas supostamente para não serem entendidas, enquanto o tom de voz empregado muitas vezes levava a adivinhações que eram difíceis de serem confirmadas ou ignoradas. Ainda criança, descobri que a escolha de uma peça musical para ser tocada num instrumento ou numa gravação, era uma indicação bem forte do estado de espírito da pessoa envolvida. Depois disso veio a descoberta de que cacoetes envolviam mais do que a mecânica de partes do corpo. Mas a descoberta mais preciosa foi ler as palavras de um humorista “comunicação é o que outro ouve”. Esta sábia e tão perceptiva piada acentuava a dificuldade que influencia tantas de nossas interações sociais: como podemos ter certeza de que nossas palavras foram compreendidas corretamente? Como podemos garantir que realmente entendemos o que a outra pessoa queria nos comunicar?

No contexto de nossa vida social diária, com sorte podemos encontrar o clima emocional que nos permita verificar e esclarecer quaisquer dúvidas que interferem com o fluxo da conversa. Mas quando uma pessoa enfrenta sentimentos que envolvem dor ou ansiedade, logo encontramos uma rede complexa de dificuldades que afetam a capacidade daquela pessoa de exprimir o que lhe atormenta. Qualquer que seja sua idade, é bem comum que a pessoa não encontre as palavras que poderiam transmitir seus conflitos internos. As pessoas em torno daquele indivíduo podem imaginar que ele deliberadamente se recusa a expressar o que lhe afeta, mas tenho certeza de que isso, na maioria dos casos, não é correto. A criança que se queixa de pesadelos pode não estar ciente de que eles são devidos a medos de que um dos pais abandone a família, da mesma forma que um adulto sofrendo de cólicas abdominais pode não ligar isso à notícia de um amigo que precisou ser hospitalizado. Mas sonhos e cólicas são exemplos do corpo sendo “usado” para exprimir conflitos emocionais.

See All Chapters
Medium 9781910977088

ALAN

Brafman, A.H. Editora Karnac ePub

Alan tinha 15 anos quando sua madrasta entrou em contato com a Clínica pedindo que o ajudássemos. Ela achava que ele se sentia infeliz, era difícil conversar com ele, aparentemente obcecado com religião e totalmente desligado de sua escola e da vida social, exceto de música, a atividade a que dedicava a maior parte de seu dia. Ela também disse que Alan “discutia ou brigava” com seu pai “o tempo todo”. Quando o Psicólogo Educacional da clínica entrou em contato com a escola de Alan, os professores lhe disseram que ele era um rapaz sensível, inteligente e estudioso, mas que frequentemente parecia “desligado”.

Alan tivera uma infância traumática. Sua mãe abandonou a família quando Alan tinha 4 anos de idade e ele foi viver com seus avós paternos. Seu pai casou-se novamente quando Alan estava com 7 anos e seu avô, a quem ele era muito chegado, faleceu pouco tempo depois. Alan voltou a viver na nova casa de seu pai, onde conheceu sua madrasta e seus dois filhos, mais velhos que ele. Sua relação com a madrasta era bastante boa, mas tinham choques ocasionais que geralmente levavam à intervenção de seu pai e, em consequência, períodos em que Alan se sentia só e rejeitado. Quando veio nos ver, ele havia desenvolvido enorme interesse na igreja da comunidade – não só tomava parte em suas atividades musicais, como também havia se tornado muito chegado ao vigário e sua jovem e atraente esposa. Ambos os pais se ressentiam deste envolvimento de Alan e faziam constante pressão para ele se afastar da igreja e do casal.

See All Chapters
Medium 9781910977088

ANNA

Brafman, A.H. Editora Karnac ePub

Anna tinha 13 anos quando veio me ver para uma avaliação psiquiátrica de seus problemas. Nos últimos meses ela havia apresentado uma série de sintomas físicos e uma mudança dramática de seu temperamento e a maneira de tratar os pais. Na escola, os professores haviam introduzido modificações nos seus horários, tentando ajudar Anna a lidar com seus sintomas físicos e frequentes crises de angústia.

Anna tinha dois irmãos mais velhos que haviam deixado o lar da família e seus pais tinham uma relação amorosa e harmoniosa. A Sra. A havia devotado sua vida a cuidar da família e o Sr. A era ativo desportista, que havia progredido e chegado a ser o treinador de esportistas profissionais e amadores. Entretanto, no último ano antes de nosso encontro, o Sr. A vinha sofrendo de uma forma grave de doença artrítica que o impedira de fazer o trabalho que tanto adorava.

Quando vi Anna sozinha, ela mostrou-se uma adolescente inteligente e bem capaz de articular seus pensamentos, me contando dos conflitos que tinha com colegas e das dificuldades da vida em família. Quando a vi com um ou ambos os pais, Anna era outra pessoa: introvertida, tensa e obviamente cuidando do que poderia dizer em voz alta.

See All Chapters

See All Slices