20 Slices
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CRISTINA

Brafman, A.H. Editora Karnac ePub

Na primeira página (Fig. 54) vemos um cachorro caçando um coelho e eventualmente o pegando e comendo. Já na página seguinte (Fig. 55) o cachorro dorme pacificamente. De acordo com os números que Cristina deu aos desenhos, o cachorro que dorme tem “número 6”, ou seja, descansando depois de comer o coelho. Mas justapondo as duas páginas (Fig. 56) fica-se com a impressão de que o cachorro que dorme está sonhando toda a caça – uma interpretação que poderia ser apoiada no fato de que o desenho de número 5 mostra o cachorro comendo do seu pratinho “normal” de comida. Outro dado é que a artista escolheu pôr “desenho 2” acima da imagem de coelhos correndo nos campos como “desenho 1”. Outra explicação seria que o cachorro que dorme está se lembrando da sua caça, mas de qualquer modo é interessante notar a superposição das imagens do cachorro correndo e dormindo.

(Fig. 54)

Cristina
primeiro desenho

(Fig. 55)

Cristina
segundo desenho

(Fig. 56)

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BERENICE

Brafman, A.H. Editora Karnac ePub

O clínico geral da família nos pediu para ver esta menina de 12 anos, porque sua mãe descobrira que Berenice havia roubado dinheiro de sua bolsa e que também estava matando aulas na escola. A Sra. B estava muito perturbada e chorando quando falou com a secretária da clínica para marcar uma consulta. Ela sentia como se, de repente, houvesse sido aberto um enorme vácuo entre ela e Berenice: ela mencionou fazer perguntas à filha e não ter conseguido mais do que “um olhar vazio”. A Sra. B queria ver o médico o mais cedo possível e ficou aliviada quando a secretária lhe disse que uma hora no dia seguinte havia sido cancelada. A secretária comentou comigo que a Sra. B mostrava um grau de angústia que parecia algo desproporcional à sua descrição do comportamento de Berenice.

A Sra. B veio à entrevista não só com Berenice, mas também com seu marido. Minha impressão de Berenice era de uma menina de doze anos sem qualquer característica que chamasse atenção; bem vestida, de altura média e aparência bem agradável. A Sra. B estava extremamente tensa e o Sr. B parecia pouco à vontade, como se não entendesse bem o que poderia ser o propósito desse encontro comigo. Ambos haviam nascido e crescido na comunidade onde moravam agora e suas famílias se conheciam há décadas. O Sr. B trabalhava em construção de prédios e sua esposa fazia ocasionais limpezas domésticas. Eles tinham dois filhos mais jovens e ambos frisavam o quão comum e normal havia sido a vida da família - até a crise atual com Berenice romper a imagem de segurança do passar dos dias.

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JULIA

Brafman, A.H. Editora Karnac ePub

Esta menina produziu uma apresentação diferente do que chamo de desenhos divididos, mas acredito que ainda constitua um exemplo válido do fenômeno que estou descrevendo.

Vi Julia quando tinha 13 anos de idade. A Sra. J havia se mudado com seus filhos para a área em que ficava a Clínica de Orientação Infantil pouco tempo antes de ter vindo me ver com Julia. Esta havia se matriculado no ginásio local, mas estava tendo grandes dificuldades de se acomodar com sua vizinhança. Ela se queixava de inúmeros sintomas físicos, mas várias consultas com o clínico do bairro não haviam identificado anormalidades orgânicas. Foi com muita relutância que a Sra. J concordou em me ver.

A família havia passado por anos muito traumáticos. Aparentemente, o Sr. J não só abusava do uso de álcool, como também era muito violento com sua mulher e filhos. Depois de muitos anos de casamento, a Sra. J decidira pôr fim ao casamento e saiu de casa com seus filhos, conseguindo obter nova residência numa comunidade bem longe de onde haviam vivido. A Sra. J fazia muita força para reorganizar sua vida, mas recentemente seus filhos haviam lhe comunicado ter, subitamente, encontrado seu pai na rua e ele lhes dissera que carregava um revólver e um facão, avisando a eles que dissessem isso à sua mãe.

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BETH

Brafman, A.H. Editora Karnac ePub

A mãe desta menina de 10 anos procurou ajuda porque não conseguia mais aguentar o grau e frequência de seus desafios e revoltas. Um filho mais velho e duas filhas menores foram descritos como tranquilos e amáveis, conquanto Beth frequentemente provocava as irmãs com brigas e discussões. Em contraste, Beth não apresentava problemas na escola e tinha uma vida social normal e bem ativa com amigos e vizinhos.

Ficamos sabendo que a Sra. B havia se divorciado de seu marido pouco depois do nascimento da última filha. Eles continuaram a manter uma relação amistosa e a Sra. B parecia até gostar da nova esposa de seu ex-marido. Mas das quatro crianças, Beth era a única que sentia saudades dos dias em que tinha a companhia de seu pai. A Sra. B descreveu uma ocasião recente em que ela ficara tão zangada com Beth que havia pedido ao Sr. B que a levasse para sua casa por alguns dias. Aparentemente, Beth adorou isso e seu comportamento em casa melhorou – por alguns dias.

Quando vi Beth, achei bem difícil estabelecer um diálogo com ela. Fiquei sabendo que sua mãe havia lhe dito que a razão por que vinham me ver era para discutir comigo qual seria a melhor escola para fazer seu curso ginasial. Acontece que Beth estava satisfeita com a escola que já havia escolhido e tinha certeza de que conseguiria uma vaga. Gradualmente, conseguimos ampliar o campo de nossa conversa e Beth me disse que tanto ela como seus irmãos estavam bem felizes com a separação de seus pais, uma vez que haviam permanecido bons amigos, enquanto que, quando viviam juntos, brigavam violentamente o tempo todo.

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RAQUEL

Brafman, A.H. Editora Karnac ePub

Esta menina de 11 anos foi mandada para nossa clínica por seu clínico geral. Ela vinha se queixando de pesadelos e de vários sintomas físicos que frequentemente a impediam de ir à escola. O clínico havia pedido a opinião de um gastroenterologista, mas este nada encontrou de anormal. Ele também havia dado uma série de conselhos a Raquel e seus pais sobre a rotina da hora de dormir, tentando reduzir o nível de ansiedade de Raquel, mas isso não havia produzido resultado algum. Ele decidiu investigar fatores emocionais e pediu ajuda ao Psicólogo Clínico – como nenhuma melhora fosse conseguida, os pais voltaram ao clínico geral e depois de novas discussões, o médico recomendou uma avaliação psiquiátrica.

Ambos os pais vieram com Raquel à entrevista diagnóstica. O pai era vendedor numa loja local e a Sra. R se dedicava a cuidar da casa e seus dois filhos. Eles descreveram as histórias de suas famílias de origem e tudo parecia muito normal. O casamento era harmonioso e o irmão mais moço de Raquel vinha crescendo sem problemas. Ambas as crianças frequentavam uma escola da comunidade e eram descritas como “médias elevadas” em seus estudos. Raquel se acomodou à entrevista sem dificuldades. Ela me contou de seus muitos sintomas físicos e de como ela lamentava faltar à escola devido às suas múltiplas dores. Os distúrbios do sono levavam a uma vivência de fraqueza geral que dominava o dia seguinte, mas Raquel frisou o quanto ela se esforçava para não se entregar à vontade de simplesmente se deitar e dormir.

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